O dia em que a noite começou

A reflexão de uma das mulheres que seguia Jesus

(a partir do Evangelho do dia – Jo 13, 21-33.36-38)

“Aquela noite tinha um silêncio diferente. Não era o silêncio da paz. Era o silêncio pesado que antecede algo que ainda não sabemos nomear.

Eu não estava sentada à mesa com eles, mas estava perto. Foi assim que vi o rosto de Jesus quando tudo começou a mudar…

Ele ficou perturbado. Nunca O tinha visto assim. Ele, que tantas vezes acalmou tempestades e consolou lágrimas, parecia agora carregar dentro de si um peso sofrido. Ouvi-o dizer: “Um de vós vai entregar-me.” Por um momento ninguém falou. As palavras ficaram suspensas no ar como uma condenação. Olhei para aqueles homens que caminharam com Ele durante tanto tempo. Tinham deixado redes, casas, seguranças. Tinham visto milagres, tinham ouvido palavras que mudavam o coração. E mesmo assim entre eles estava a traição. Isso assustou-me. Percebi que estar perto de Jesus não significa necessariamente compreendê-lo nem segui-lo até ao fim.

Depois Judas levantou-se e saiu. Foi tudo tão rápido. A porta fechou-se e a noite engoliu-o. Fiquei a olhar a escuridão lá fora. Há noites que começam dentro do coração muito antes de começarem no céu.

Mas Jesus não ficou preso a essa dor. Falou de glória. Falou de um caminho que os outros ainda não podiam seguir. Pedro, impetuoso como sempre, prometeu tudo. Até dar a vida! Eu quis tanto acreditar nele… Mas quando Jesus respondeu, o meu coração apertou-se. “Antes do galo cantar, três vezes me negarás.” Pensei então como somos frágeis quando prometemos fidelidade apenas com a força do entusiasmo.

Nessa noite, enquanto fechávamos as portas da casa, fiquei a pensar como Jesus conhecia a traição de Judas e a negação de Pedro e, mesmo assim, tinha repartido o pão com eles. Assim é Deus que vê tudo em nós: a coragem e os medos, a fidelidade e as quedas. E ainda assim continua a sentar-nos à Sua mesa. Talvez seja por isso que continuo a segui-lo… Não porque eu seja forte, mas porque o seu amor é sempre maior do que a minha fraqueza.”

🖋 Ana Luísa Marafona

O dia do amor derramado

A reflexão de Marta, irmã de Lázaro

(a partir do Evangelho do dia – Jo 12, 1-11)

“A casa estava cheia de gente, de vozes, de vida. Ainda me custa acreditar que Lázaro está novamente sentado à mesa. Às vezes, passo por ele e preciso de olhar duas vezes. Ainda há poucos dias chorávamos a sua morte! Agora ele está aqui como se o túmulo tivesse sido apenas um pesadelo.

Hoje cozinhei com ainda mais cuidado. Gosto de preparar a mesa, de ver se nada falta, de garantir que todos têm lugar. É a minha maneira de agradecer, de amar.

Enquanto levava os pratos, observava: Lázaro conversava com alguns dos discípulos; Jesus escutava, com aquele olhar que parece sempre mais profundo do que as palavras; Maria estava sentada perto dele em silêncio. De repente, ouvi o som do frasco a abrir. Levantei os olhos a tempo de ver Maria inclinar-se sobre os pés de Jesus. O perfume espalhou-se pela casa inteira. Um aroma forte, quase exagerado, e tão intenso que interrompeu todas as conversas. Conheço Maria. Ela não sabe amar pela metade. Ouvi murmúrios. Judas falou de desperdício. Alguns concordaram em silêncio. Talvez até eu própria, em outros tempos, tivesse pensado o mesmo. Afinal, sei bem quanto custa ganhar o pão de cada dia.

Mas depois olhei para Jesus. Ele não parecia incomodado. Havia no seu rosto uma gratidão silenciosa, mas também uma tristeza que não sei explicar. Então percebi algo. Enquanto eu preparava a mesa para celebrar a vida de Lázaro, Maria tinha percebido que outra coisa estava a acontecer. Algo mais profundo. Algo que se aproximava. Eu organizava a casa. Ela preparava o coração. E Jesus acolhia os dois gestos. Talvez seja isto que ainda estou a aprender: que o amor tem muitas formas. Às vezes, é servir a mesa com cuidado. Outras vezes, é quebrar um frasco de perfume sem fazer contas.

Hoje, enquanto arrumava, o cheiro do perfume ainda enchia todas as salas. E pensei que o amor verdadeiro é assim. Espalha-se pela casa inteira. Permanece no ar muito depois do gesto. E lembra-nos que, quando Jesus se senta à nossa mesa, nunca nenhum gesto de amor é exagerado.”

🖋 Ana Luísa Marafona

O dia da alegria breve

A reflexão de uma das mulheres que seguia Jesus

(a partir do Evangelho do Domingo de Ramos – Lc 19, 28-40)

“Nunca vi Jerusalém assim. As ruas cheias, não apenas de gente, mas de expectativa. Como se todos estivessem à espera de algo, mesmo sem saber bem o quê. Havia ramos nas mãos, vozes levantadas, crianças a correr, mantos estendidos no chão. E, no meio de tudo isso, Ele.

Ouvia os gritos: “Hossana ao Filho de David!” Cantavam como se estivessem a coroar um rei. E, por um instante, deixei-me levar por aquela euforia. Era impossível não o fazer. Depois de tudo o que tínhamos vivido com os milagres, os encontros, as palavras que nos mudaram por dentro, parecia justo que, finalmente, alguém O reconhecesse.

Mas havia algo que não estava bem. Enquanto todos olhavam para Ele como um rei, o seu olhar não era o de quem chega ao lugar que sempre quis. Era um outro olhar. Um olhar que atravessava a cidade como se a visse ao longe. Como se, por detrás dos ramos e das vozes, já estivesse a contemplar outra situação… mais dura, mais impactante.

Aproximei-me um pouco mais. O jumento avançava devagar, contrastando com a agitação à volta. E Ele deixava-se conduzir assim, sem pressa, sem resistência. Então, nesse momento, lembrei-me de outras palavras que tínhamos escutado pelo caminho. Palavras sobre entrega, sobre rejeição, sobre um fim que não parecia vitória. Palavras que não compreendemos totalmente e que, agora, voltavam ao meu espírito e me inquietavam. Talvez, por isso, a minha alegria não era inteira. Era verdadeira, mas trazia com ela uma preocupação que eu não sabia explicar.

Olhei para os ramos espalhados no chão. Tão verdes. Tão vivos. Pensei como era estranho que o caminho de um rei fosse feito de folhas que amanhã já estariam secas. Talvez seja sempre assim com Deus. Nós celebramos o momento. Ele vê sempre o caminho por inteiro.

A multidão continuava a gritar. Eu também levantei o meu ramo. Dentro de mim, havia apenas uma certeza que não sabia ainda nomear. A certeza de que aquele caminho não se fazia de aplausos efémeros, mas de escolhas e de permanência.”

🖋 Ana Luísa Marafona

Estrada Maior – Meditações para a Semana Santa 2026

Iniciamos, amanhã, a Semana Maior, aquela que abarca um misto de dias de alegria imensa e de tristeza profunda, de certezas mil e de inquietações quase inumeráveis. A partir de amanhã, acompanharemos, passo a passo, os últimos dias de Jesus e aquele que é, em cada ano, o sempre nosso primeiro dia. Por que precisamos, hoje, de viver estes dias tão grandes? Porque todos eles são espelho de uma vida vivida em amor, em partilha, em escolhas.

Esta Semana Maior, tantas vezes contada com passos firmes e nomes sonantes, guarda nas suas margens um outro Evangelho, um Evangelho de gestos discretos, de permanências teimosas, de fidelidades que não fugiram quando tudo parecia desmoronar. Esse Evangelho tem rosto de mulher…

Foram elas que ficaram quando muitos partiram. Foram elas que observaram, que choraram, que cuidaram, que prepararam. Foram elas que souberam esperar no escuro da madrugada e reconhecer a Vida quando ainda era apenas um sussurro. E, no entanto, tantas vezes o seu lugar foi sendo empurrado para rodapés da história, como se a coragem pudesse ser medida pelo volume da voz e não pela profundidade da entrega.

Falar das mulheres no Cristianismo é, por isso, não só um exercício de memória, mas também de justiça. É recuperar o fio invisível que sempre sustentou a fé vivida, encarnada, concreta. É reconhecer o pioneirismo silencioso de quem abriu caminhos sem pedir licença, muitas vezes sem sequer saber que o estava a fazer.

Por isso, a partir de amanhã, partilharei convosco, aqui, um texto diário escrito na visão daquelas mulheres que acompanharam Jesus nos seus últimos dias. São as minhas palavras fruto de um tempo de oração, de meditação, de estudo. Vamos caminhar com o olhar destas mulheres para aprender com elas a reconhecer quem somos e quem, hoje, como elas, continua a acompanhar Jesus nas suas comunidades, nas suas casas, nos silêncios e nos lugares onde a fé se faz vida.

Aceitem este nosso convite e venham caminhar nesta nossa Estrada Maior, nesta Semana Santa.

Um abraço amigo!
Ana 🌻

Dia do Pai 2026

“𝑆𝑒𝑟 𝑝𝑎𝑖 𝑒́ 𝑎𝑐𝑒𝑖𝑡𝑎𝑟 𝑠𝑒𝑟 𝑐𝑜𝑛𝑠𝑡𝑟𝑢𝑖́𝑑𝑜 𝑛𝑢𝑚𝑎 𝑟𝑒𝑙𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑎𝑚𝑜𝑟 𝑐𝑜𝑚 𝑜 𝑝𝑟𝑜́𝑝𝑟𝑖𝑜 𝑓𝑖𝑙ℎ𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑚𝑜𝑑𝑖𝑓𝑖𝑐𝑎 𝑟𝑎𝑑𝑖𝑐𝑎𝑙𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑒 𝑑𝑒𝑓𝑖𝑛𝑒 𝑑𝑒 𝑚𝑜𝑑𝑜 𝑛𝑜𝑣𝑜 𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑒 𝑒𝑟𝑎.” (𝐶𝑎𝑟𝑑𝑒𝑎𝑙 𝐽𝑜𝑠𝑒́ 𝑇𝑜𝑙𝑒𝑛𝑡𝑖𝑛𝑜 𝑀𝑒𝑛𝑑𝑜𝑛𝑐̧𝑎)

Hoje é dia de agradecermos os pais em todas as suas formas e caminhos!

Como São José, muitos pais vivem, no lugar discreto da história, uma paternidade que não precisa de palco. Não procuram destaque, mas estão onde é preciso estar. Amparam sem ser protagonistas, decidem em silêncio, protegem com uma coragem tranquila que só se entende com o tempo. Ser pai é, tantas vezes, isto: carregar responsabilidades que ninguém vê, guardar preocupações que não se dizem, escolher todos os dias ficar, mesmo quando é difícil, mesmo quando não há certezas. É aprender a amar sem controlar, a guiar sem impor, a dar raízes e, ao mesmo tempo, asas. Há uma grandeza escondida nos pais que ficam. Nos que não desistem. Nos que, à sua maneira, vão dizendo “estou aqui” com a vida inteira.

Que cada pai reconheça, hoje, a beleza dessa missão tão discreta e tão essencial. E que, à imagem de São José, encontre paz em ser presença, força tranquila e abrigo. Que descubram que, mesmo nas imperfeições, há um amor que constrói, que sustenta, que permanece.

Um abraço cheio de amor profundo ao meu PAI, a quem celebro hoje e sempre, e a quem agradeço a vida de todos os dias.

Um abraço de gratidão a todos os PAIS que fazem parte da vida desta nossa Comunidade. Aqueles a quem hoje podemos abraçar e aqueles que agora já vivem para sempre. Obrigada por tanto e por tudo.

Um Feliz Dia do Pai a todos os que são filhos e pais, porque este dia só pode existir porque existe o maior de todos os poderes – o do Amor!

Ana

Jejum permanente

Reflexão para o mês de março de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Não será antes este o jejum que Eu prefiro: quebrar as cadeias injustas, repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres sem abrigo?” (do Livro do Profeta Isaías)

A Quaresma costuma entrar na nossa vida por portas muito pessoais. Pensamos no que vamos deixar, no que vamos acrescentar à oração, no pequeno ou grande sacrifício que queremos assumir. Tudo isso é legítimo e faz parte de uma tradição espiritual muito rica. A questão surge quando, sem darmos conta, reduzimos a esta conversão a um movimento apenas interior, quase privado, como se o caminho para Deus não tivesse consequências visíveis e concretas na forma como habitamos o mundo.

O profeta Isaías transmite uma pergunta muito direta de Deus ao seu povo: “Não será antes este o jejum que Eu prefiro: quebrar as cadeias injustas, repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres sem abrigo?” Esta é uma pergunta que continua a ser desconcertante hoje. Porque nós entendemos facilmente um jejum feito à mesa. Percebemos o esforço de abdicar de certos alimentos, de certos confortos, de certos hábitos. Mas Isaías desloca o centro do jejum para outro lugar: para a justiça, para a partilha, para a atenção concreta a quem vive em necessidade.

O povo a quem Isaías fala também jejuava. Também cumpria práticas religiosas. Também se esforçava por fazer o que era prescrito. E, no entanto, Deus diz-lhes, com uma franqueza que continua atual, que aquele jejum não O satisfaz plenamente. Porquê? Porque pode existir prática religiosa sem verdadeira transformação do coração. Pode existir sacrifício pessoal sem abertura real ao sofrimento dos outros. Pode existir uma vida espiritualmente organizada que, ainda assim, passa ao lado das feridas concretas do mundo.

Isaías não despreza o jejum. Purifica-o. O verdadeiro jejum, diz o profeta, começa a notar-se na forma como tratamos as pessoas, sobretudo as mais frágeis. Começa quando a nossa relação com Deus se traduz em gestos que libertam, que sustentam, que devolvem dignidade. E isto é particularmente exigente no contexto em que vivemos. As desigualdades sociais não são uma realidade distante. Estão presentes nas nossas cidades, nas periferias, nas histórias silenciosas de precariedade, na solidão escondida de muitas pessoas, na dificuldade real de quem trabalha muito e continua a não conseguir viver com dignidade.

O grande risco espiritual do nosso tempo é o da habituação. Ver tantas vezes a mesma ferida até deixar de a sentir. Passar ao lado com uma explicação rápida na cabeça e a consciência aparentemente tranquila. Consolarmo-nos com a ideia de que já fazemos muito ou fazemos o que pudemos. A indiferença não é apenas falta de ação. É um hábito silencioso, quase impercetível e automático, que nos fecha o coração.

Chamados a viver a Quaresma como tempo favorável de conversão, somos convidados a rasgar esta indiferença. O jejum que agrada a Deus não se limita ao que faço por mim, mas manifesta-se na forma como eu respondo àqueles que sofrem. Por outras palavras, a verdadeira conversão começa quando a indiferença é rompida e o coração deixa-se habitar pelo outro. O jejum a que Deus nos chama vai mais fundo do que o prato vazio. Jejuar é abrir espaço em nós para acolher o sofrimento dos irmãos. É deixarmos de nos alimentar do medo, do privilégio e da desculpa. É parar de pedir a Deus que nos escute e começarmos a escutar quem grita ao lado. O jejum que agrada a Deus é inseparável da justiça, da solidariedade e do cuidado concreto com o meu próximo. Jejuar sem atenção ao outro corre o risco de se tornar uma prática vazia. Partilhar sem fé pode ser apenas uma atividade de filantropia.

É importante dizer com clareza: ninguém resolve sozinho problemas estruturais complexos. A desigualdade social tem causas económicas, políticas e culturais profundas. A Quaresma não nos pede heroísmos isolados nem soluções simplistas. O que nos pede é outra coisa, mais exigente e mais realista ao mesmo tempo: que não deixemos o coração acomodar-se à indiferença. O caminho cristão faz-se da tensão fecunda entre interioridade e compromisso e requer que sejamos capazes de rever a forma como habitamos o mundo e como nos situamos perante as desigualdades que vemos. Cada gesto de atenção, cada escolha ética, cada ato de solidariedade é, portanto, um espaço onde a Quaresma se torna realidade viva e onde somos fiéis ao Evangelho.

Talvez a pergunta mais honesta para este tempo quaresmal, à luz de Isaías, não seja apenas: “De que é que eu vou abdicar?”. Talvez a questão precise de ser outra: “Como vou viver de maneira que a minha fé transforme o meu trabalho, as minhas relações, as minhas escolhas e o meu quotidiano em justiça, partilha e cuidado?”.

Viver a Quaresma significa, portanto, despertar da anestesia da indiferença. Pequenas atitudes tornam-se então significativos: ouvir quem ninguém escuta, oferecer tempo e recursos, escolher a justiça nas relações profissionais, educar os filhos no cuidado pelo próximo, tomar decisões de consumo conscientes. Cada gesto é um exercício de transformação que atravessa o coração e se concretiza na vida real.

A Quaresma nunca cabe inteira nas nossas listas de propósitos. Ela começa, sim, no silêncio do coração, mas recusa ficar lá fechada. A conversão verdadeira tem sempre uma porta aberta para fora, para os outros. A Quaresma não nos pede que salvemos o mundo; pede-nos que não passemos ao lado dele. Que não nos habituemos ao que fere. Que não façamos da indiferença um lugar confortável para a consciência descansar. E, assim, quando chegarmos ao fim deste caminho quaresmal, poderemos descobrir que o verdadeiro jejum não nos esvaziou, mas tornou-nos mais humanos. E é nesse lugar, tão simples e tão exigente, que Deus deseja encontrar-nos.

Quaresma, oficina de Deus em nós

Mensagem para a Quaresma 2026

Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

A Quaresma começa, muitas vezes, com listas: o que vou cortar, o que vou fazer, o que vou cumprir. Mas Deus começa num outro lugar. Começa no nosso espaço interior onde ainda não sabemos bem como mudar. A Quaresma não é um teste de força espiritual. É um treino de disponibilidade, onde não medimos o que somos capazes de fazer, mas sim o que permitimos que Deus faça em nós.

A Quaresma pede-nos conversão, transformação. Deixar-se transformar é consentir que Deus trabalhe no invisível, como fermento na massa, como seiva no tronco. A conversão é um convite em aberto para que a mente, tantas vezes cansada de ruídos, de opiniões, de defesas e de comparações, reaprenda a ver com simplicidade, a amar sem julgamentos, a confiar sem medos. Talvez o maior obstáculo que experimentamos seja o das narrativas interiores que nos dominam: “eu sou assim”; “já não consigo”; “não vale a pena tentar”. A transformação interior começa quando estas frases perdem autoridade, quando deixamos de as tratar como destino e apenas as aceitamos como provisórias. Deixar-se transformar é permitir que Deus nos ame para além da imagem que defendemos de nós próprios. É acreditar que Ele vê possibilidades onde nós vemos limites, vê futuro onde vemos repetição, vê vida onde vemos desgaste. Converter-se não é rejeitar quem fomos, mas sim permitir que não sejamos reduzidos a apenas isso e dar permissão a Deus para rever significados, curar memórias e desalojar ideias antigas sobre quem somos e o que valemos.

Quaresma. Oficina de renovação. Lugar escondido onde Deus trabalha. Espaço onde Ele não nos tira a nossa identidade, mas devolve-a. Onde Ele ajusta intenções e aplana as veredas. Onde Ele fortalece o que somos chamados a ser.

Nesta Quaresma, não procuremos a nossa melhor versão. Procuremos, antes, um coração atento e ofereçamo-nos por inteiro. É a partir daqui que Deus age em nós. Que esta Quaresma não termine numa meta de perfeição, mas numa disponibilidade nova, deixando que a conversão continue para lá do calendário.

Perdão, Sentido e Transcendência

A Logoterapia de Viktor Frankl em diálogo com a Fé Cristã

Ao longo destes três anos de encontros “Falar para CRER”, fomos aprendendo, juntos, que a fé cresce quando encontra palavras, quando se deixa escutar e quando se arrisca a tocar a vida real. Cada encontro foi um espaço seguro onde pudemos pensar a fé, rezá-la e confrontá-la com as nossas perguntas mais humanas. Não trouxemos respostas prontas, mas criámos caminhos. Não evitámos as fragilidades, antes aprendemos a habitá-las à luz do Evangelho. Nestes encontros, confirmámos algo essencial: crer não é fugir da vida, mas mergulhar nela com mais verdade, mais liberdade e mais esperança.

Por isso, continuamos neste nosso caminho comum e neste mês em que se assinalam três anos de encontros “Falar para CRER”, a Comunidade Estrada Clara, em colaboração com a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (Matriz), propõe um ciclo de formação, em dois momentos, que aborda a dimensão do perdão na vida humana. Partindo da Logoterapia de Viktor Frankl, que nos convida a descobrir um propósito mesmo nas situações de sofrimento, esta formação será vivida em diálogo com a mensagem cristã do perdão. O perdão não apaga a dor, mas pode transformar o coração, libertando-nos do peso do ressentimento e abrindo-nos à esperança e renovando o nosso propósito de vida. Ao longo destes dois encontros, seremos convidados a refletir, partilhar e meditar, descobrindo como o perdão pode tornar-se um verdadeiro caminho de liberdade interior, reconciliação e vida com sentido.

Esta formação destina-se a todos os que se quiserem juntar a nós, independentemente da idade ou percurso de fé, e pretende ser um tempo de crescimento humano e espiritual, vivido em comunidade que somos, certos de que a fé amadurece quando se deixa tocar pela verdade da nossa história.

Dia da Vida Consagrada 2026

Dia da Vida Consagrada. Um dia que fala de entrega, de disponibilidade, de vidas colocadas diante de Deus sem reservas. Um dia que nos convida a olhar para trás com gratidão, para o presente com verdade e para a frente com esperança.

Esta foi a nossa escolha, minha, da Beatriz e do Jorge há já muitos anos. Por isso, este dia vai ser sempre um dia celebrado e lembrado a três. Três histórias, três percursos, três formas de escutar Deus, e uma intuição comum: a vida só faria sentido se fosse entrega. Quando nos comprometemos, não sabíamos exatamente como seria esse caminho. Sabíamos apenas que não queríamos guardá-lo para nós. Desde então, temos vindo a aprender a viver com as mãos abertas, com entusiasmos e com medos. Dias há em que a estrada parece clara e outros em que avançamos apenas porque confiamos em Quem caminha connosco. O nosso compromisso não nos poupa às dúvidas nem aos cansaços, mas dá-nos um lugar onde permanecer quando tudo parece instável. A nossa comunidade é a casa onde aprendemos que a fidelidade se constrói em relação e onde a esperança cresce quando é partilhada. Aqui, o nosso compromisso deixa de ser apenas uma decisão pessoal e torna-se um caminho feito a várias vozes.

Ao celebrar este Dia da Vida Consagrada, olho para o futuro com confiança para viver, da melhor forma possível, desafios, mudanças, fragilidades. Porque a vida entregue continua a gerar vida. Porque Deus não termina aquilo que começa. Porque o nosso “sim” dito um dia continua a abrir possibilidades que ainda não conhecemos. Há ainda muito caminho por fazer. Muitas vidas por encontrar. Muitas formas novas de servir e amar que nós ainda não imaginamos.

Agradecer este dia é voltar a colocá-lo no presente. É dizer outra vez, com a nossa vida toda, que continuamos disponíveis para toda a vida. Por isso, hoje, não celebramos perfeições nem metas alcançadas. Celebramos a graça de continuar a caminhar juntos. Celebramos a luz que não se apaga, mesmo quando é pequena. Celebramos a fidelidade possível, sustentada pela comunidade e pela certeza de que Deus permanece fiel primeiro.

Ana

Oração ao Tempo

Reflexão para o mês de fevereiro de 2026

Texto de Ana Luísa Marafona, Comunidade Estrada Clara

“Neste mundo, tudo tem a sua hora; cada coisa tem o seu tempo próprio.” (do Livro do Eclesiastes)

Sempre gostei muito do “Poema do Tempo” que vem no livro bíblico do Eclesiastes. Sabia que, um dia, haveria de escrever um texto sobre esta bela passagem que nos expõe, com simplicidade e delicadeza, ao conceito do tempo como uma arte singular. Acontece também que, por estes dias, foi tornado público o dueto que une Caetano Veloso e António Zambujo com a lindíssima canção “Oração ao Tempo”, um tema original do próprio Caetano, tema este escrito, curiosamente (ou não!) em 1979 (ano do meu nascimento!). Portanto, impelida por tantos sinais, percebi que era chegado o tempo próprio de refletir sobre… o próprio do tempo!

Somos feitos de tempos, de idades, de estações. Somos moldados e transformados pelo tempo que vai fluindo e emergindo em nós e nos outros. Ao mesmo tempo, vivemos uma relação tensa com o tempo. Queremo-lo rápido quando dói, lento quando é feliz, previsível quando nos assusta. Habitamos uma época que tem muitas dificuldades em esperar. A rapidez tornou-se critério de valor e a lentidão é frequentemente confundida com fracasso. Usamos e abusamos daquele ditado antigo que nos diz que o tempo voa. Por causa disto, consumimos desenfreadamente, sem saborear a própria vida que cheia está de detalhes que não se revelam a quem não seja sensível ao tempo. Dizemos inúmeras vezes que não temos tempo e outras tantas vezes damos por nós aborrecidos com o tempo que nos sobra. Que tenho eu feito, afinal, deste tempo que me é dado? Como posso eu ser instrumento deste tempo que me habita? Quem sou eu neste tempo da minha história?

Este poema bíblico ao Tempo reconhece a ambiguidade do próprio tempo e não nega a sua complexidade. De uma forma clara, enfatiza, em cada verso, que “tudo tem o seu tempo”, isto é, um tempo próprio, um “kairós”, um tempo oportuno que, muitas vezes, não coincide necessariamente com a nossa urgência interior. E é precisamente aqui que a fé que escolhemos assume uma importância vital. Deus nunca é indiferente à nossa história e acreditar nisto é viver o tempo com o coração no lugar certo.

Diz-nos o autor sagrado que há um tempo para construir e para destruir, para chorar e para dançar, para guardar silêncio e para falar. A vida não se move numa linha reta de progresso contínuo, mas num ritmo feito de avanços e recuos, de luz e de sombra. E Deus não está ausente de nenhum desses momentos. Na perspetiva cristã, o tempo deixa de ser apenas sucessão para se tornar, acima de tudo, relação. Deixa de ser apenas cronologia para se tornar história da salvação. Deus também entra no tempo. Faz-Se criança, cresce, espera, cansa-Se, sofre. Ao fazê-lo, santifica cada etapa da vida humana. Nada fica fora: nem os começos confusos, nem os meios cansados, nem os fins que carregam medo. Deus age dentro do tempo. A encarnação é, sem dúvida, a maior declaração de confiança no tempo humano.

Há um tempo para procurar e um tempo para perder. E perder também é parte do caminho espiritual, ainda que nos custe, tantas vezes, admiti-lo. Perdem-se certezas, imagens de Deus demasiado perfeitas e inatingíveis, projetos que julgávamos definitivos. Mas, muitas vezes, é precisamente nessas perdas que se abre espaço para uma fé menos ingénua e mais verdadeira, mais adulta e inteira.

Há um tempo para chorar e um tempo para rir. A fé não nos pede que saltemos etapas emocionais em nome de uma espiritualidade mal entendida. Jesus chorou. Esperou. Angustiou-Se. O tempo da fragilidade também é tempo habitado por Deus. E alegria que experimentamos é fruto de um sim para uma vida maior.

Talvez o maior desafio seja aceitar que nem todos os tempos são produtivos. Há tempos estéreis, aparentemente inúteis, onde nada parece avançar. Mas a lógica do Reino não é jamais a da eficiência. É sempre a da fidelidade. Permanecer, mesmo quando não se vê fruto, também é oração. A nossa relação com o tempo põe em evidência a nossa impaciência espiritual. Queremos compreender antes de viver, resolver antes de atravessar, fechar capítulos antes de os termos lido até ao fim. Mas a fé amadurece no intervalo, nesse espaço desconfortável onde ainda não se vê claramente e, mesmo assim, se continua a caminhar em confiança. A fé não nos protege do imprevisível e das dificuldades, mas oferece-nos uma forma diferente de os habitar. “O tempo de Deus” não é mágico nem irreal. Acontece no quotidiano, no que se passa entre o que desejamos e o que conseguimos viver. Acontece quando, apesar da impaciência, escolhemos confiar. Quando deixamos de perguntar “quando é que isto passa?” e começamos, timidamente, a perguntar “o que é que isto me pede?”.

Oração ao Tempo. Rezar o tempo é aprender a entregá-lo. É vivê-lo como lugar de encontro, não o desperdiçando com medo do futuro nem com a nostalgia do passado. Oração ao Tempo. Se tudo tem o seu tempo, então este agora, com as suas perguntas, limites e possibilidades, é também o tempo de Deus na nossa história. Procuremos uma reconciliação profunda com o tempo para podermos ver cada dia como uma epifania de Deus. A nossa vida está cheia deste tempo. Tratemos dele como quem cuida de um tesouro e vivámo-lo com gratidão e esperança. Cantemos este tempo, celebremos a experiência única e irrepetível da nossa temporalidade.